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domingo, 6 de novembro de 2011

O Cortiço - Edição, introdução, complemento de leitura, textos de capa


Contracapa
Publicado pela primeira vez em 1890, O Cortiço descreve uma habitação coletiva no Rio de Janeiro do final do século XIX.
Retrato implacável da sordidez e dos vícios humanos, o livro é uma tese determinista de Aluísio Azevedo, que revela a suscetibilidade do homem diante de certas forças, como seu meio social, sua raça, sua época.
Trata-se da obra-prima do Naturalismo brasileiro e, conforme Alfredo Bosi, “uma das conquistas definitivas do nosso romance”.


Orelha 1
“[Em Aluísio] a natureza humana afigura-se-lhe uma certa selvageria onde os fortes comem os fracos".

O Cortiço simboliza o intenso momento de transformação urbana pelo qual passou o Rio de Janeiro, a partir da segunda metade do século XIX. Dentro da linha realista-naturalista, narra a ascensão do imigrante português.”
José Veríssimo

O Cortiço representa uma das conquistas definitivas do nosso romance. [Aluísio] (...) tendo pesquisado, à maneira naturalista, tipos, fatos, situações em diferentes circunstâncias e camadas sociais, contou com um material de observação suficiente para dar ao seu romance uma categoria social de indiscutível valor e importância.”
Antonio Candido

Orelha 2
Influenciado por Eça de Queirós e Émile Zola, Aluísio Azevedo foi o introdutor do Naturalismo no Brasil, tendo sido seu maior representante no país.
Foi um crítico tenaz da sociedade e de suas instituições. Trabalhando por meio da observação de determinadas características sociais, buscava destacar os aspectos mais repugnantes e grotescos da realidade, retratando o ser humano como animal.
Foi consagrado por três obras: O mulato, Casa de pensão e O Cortiço, sua obra-prima.

REALISMO/NATURALISMO
Taís Gasparetti

O Realismo foi um movimento literário que se iniciou na Europa, na segunda metade do século XIX, com a publicação do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert.
Fazendo oposição ao idealismo do movimento romântico, os realistas concebiam os fatos de forma mais objetiva e fiel à vida real. Assim, o romance deixa de ter a função de distrair e entreter, como boa parte da produção folhetinesca do Romantismo, e toma nova importância: mostrar a realidade, diagnosticar as patologias humanas e sociais, apontar a corrupção e os desvios de caráter da sociedade.
O Naturalismo surgiu na mesma época, idealizado pelo francês Émile Zola, e foi um movimento caracterizado pela radicalização do Realismo, tendo em vista o objetivo de comprovar os fatos e as ações dos personagens do ponto de vista das ciências naturais, com o intuito de provar que o indivíduo é determinado pelo ambiente e pela hereditariedade. Nas palavras de Alfredo Bosi,[1] “o Realismo se tingirá de Naturalismo, no romance e no conto, sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das ‘leis naturais’ que a ciência da época julgava ter codificado”.


Contexto histórico

A partir da segunda metade do século XIX, a Europa passa por grandes e significativas mudanças. Muitas delas responsáveis pela constituição das sociedades ocidentais de hoje.
A burguesia começa a, definitivamente, tomar espaço. Com isso, os interesses burgueses, industriais e materialistas passam a imperar; as cidades industriais se desenvolvem e o grande contingente de operários que nelas passa a viver e trabalhar revolta-se; agitações políticas espalham-se pelo continente.
Ao mesmo tempo, a ciência – sobretudo a natural – passa por um desenvolvimento tão intenso que, com seus métodos de experimentação e observação da realidade, se torna a única apta a explicar o mundo.


Influências

De acordo com esse contexto, algumas teorias, além de marcar a época, influenciaram o surgimento e a constituição dos ideais realistas/naturalistas. Dentre elas, destacamos:

o  Positivismo – teoria segundo a qual apenas por meio da experiência se chega à “verdade”. Um de seus defensores foi Auguste Comte, pensador e sociólogo francês – e considerado precursor da Sociologia – que defendia que a análise social deveria se basear nos métodos positivos adotados por outras ciências: como a observação, a comparação e a experimentação.

o  Darwinismo – como ficou conhecida a teoria da seleção natural, segundo a qual apenas os mais aptos e fortes de cada espécie conseguiriam sobreviver. Foi o cientista natural inglês Charles Darwin – que chocou o mundo com o fruto de suas pesquisas (e até hoje é alvo de polêmicas) – que, com a publicação da obra A origem das espécies, embasou essa teoria. Para o Realismo/Naturalismo, a consequência dessa corrente filosófica é a visão do homem como um animal (que, como outras espécies, evoluiu), em detrimento da visão espiritualizada do Romantismo.
 
o  Determinismo – teoria segundo a qual o homem é condicionado pelos fenômenos que vivenciou, passando a ser deles consequência. Assim, fatores como o meio social e a herança genética explicam suas decisões e comportamentos.


O AUTOR

Aluísio Azevedo (1857-1913) nasceu em São Luís-MA, filho do vice-cônsul português David Gonçalves de Azevedo e de D. Emília Amália Pinto de Magalhães. Aos 17 anos viajou para o Rio de Janeiro a convite do irmão, o teatrólogo Artur Azevedo, e começou a estudar na Academia Imperial de Belas-Artes. Tão logo se estabeleceu no Rio, passou a colaborar com caricaturas e poesias em jornais e revistas.
Para ganhar a vida como escritor, dedicou-se a dois tipos de literatura: a primeira, escrita para ganhar o público geral e vender bem, tem início a partir da publicação de Uma lágrima de mulher (1880); a segunda, como ideal literário e forma de expressar sua visão de mundo, que o tornou célebre até os nossos dias como naturalista, tem início com O mulato (1881), seguida da publicação de Casa de pensão (1884) e O cortiço (1890), sua obra-prima.
Em 1895, Aluísio ingressou na carreira diplomática e encerrou a sua história na literatura brasileira. Morreu, a serviço, na Argentina, em 1913.


O NATURALISMO DE ALUÍZIO AZEVEDO


Influenciado por Eça de Queirós e Émile Zola, Aluísio Azevedo foi o introdutor do Naturalismo no Brasil, tendo sido seu maior representante no país.
Foi um crítico tenaz da sociedade e de suas instituições. Trabalhando por meio da observação de determinadas características sociais, buscava destacar os aspectos mais repugnantes e grotescos da realidade, retratando o ser humano como animal, com o intuito de estabelecer uma tese determinista.
De vocabulário rico e detalhista ao caracterizar os costumes, a moda e as interdições da época, Aluísio apresentava análises de cunho materialista e enredos de ritmos vertiginosos. Seus temas prediletos foram o anticlericalismo, o preconceito racial, o adultério e os vícios morais.
Para ganhar a vida como escritor, dedicou-se a dois tipos de literatura: uma com intuito meramente comercial e outra como ideal literário. A segunda o consagrou na literatura e é marcada por três obras:
 - O mulato, obra considerada marco do Naturalismo no Brasil, que provocou um grande escândalo na sociedade da época.
- Casa de pensão (1884), que descreve a vida nas pensões onde jovens estudantes do interior se hospedavam e foi inspirada em um caso policial verídico ocorrido no Rio de Janeiro.
- O cortiço (1890), sua obra-prima, que narra a vida miserável dos moradores de habitações coletivas no Rio de Janeiro.


SOBRE O CORTIÇO

Retratando uma habitação coletiva no Rio de Janeiro do final do século XIX, O Cortiço é uma tese determinista de Aluísio Azevedo e mostra como o homem é suscetível a forças maiores do que ele: o seu meio social, a sua raça e o seu momento histórico. Nesse livro, o autor traça um retrato implacável da sordidez e dos vícios humanos.
 Com diversos personagens marcantes que vão se corrompendo no decorrer da narrativa, é difícil definir o protagonista, pois mais forte que todos eles é o próprio Cortiço, que, como que personificado, possui uma história própria e cresce – como personagem esférico – no decorrer da narrativa.
Diversas histórias se relacionam para constituir a do Cortiço, símbolo do meio social que corrompe o indivíduo, tendo mais força do que o caráter ou a vontade individual. Destacam-se os personagens João Romão, português ganancioso e dono do cortiço; Bertoleza, escrava que trabalha para comprar sua alforria e torna-se companheira de João Romão, sendo explorada por ele; Miranda, representante da família burguesa; Rita Baiana, mulata sensual, amante de um capoeira; Jerônimo, português trabalhador, símbolo da moral e da ética; Pombinha, adolescente pura e estudada.
A trama é claramente uma tese determinista que, como uma teia que vai amarrando e dominando a presa, se prova por meio dos personagens que se corrompem. Além disso, sob influência darwinista, é o mais “forte” quem sempre obtém sucesso. A fêmea domina o macho porque detém sobre ele o poder da sedução e do instinto. O ganancioso enriquece às custas da exploração dos honestos.




[1] BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1976, p. 214.

sábado, 5 de novembro de 2011

Iracema e Cinco minutos - Edição, introdução, complemento de leitura, textos de capa


Contracapa

Dois romances de um dos grandes patriarcas da literatura brasileira, Iracema e Cinco minutos são dois clássicos do nosso Romantismo.
Iracema é mais do quem um romance sobre “a virgem dos lábios de mel”, a índia cujo nome é um anagrama que representa a própria América. Iracema representa o nascimento lendário do Ceará. Trata-se de uma alegoria genial à história da colonização do Brasil pelos invasores portugueses, e, por que não dizer, à história da colonização de toda a América pelo povo europeu.
Cinco minutos, é um romance urbano da primeira fase do Romantismo – e o primeiro de José de Alencar, que revela o ideal de amor romântico: puro, casto e regenerador, sentido por duas almas que lutam e enfrentam obstáculos aparentemente intransponíveis para que possam concretizá-lo.

Orelha 1

José de Alencar (1829-1877) nasceu em Messejana, Ceará. Foi advogado, jornalista, deputado e ministro da justiça. Considerado o maior romancista do movimento romântico brasileiro, destacou-se por inaugurar uma literatura tipicamente brasileira, nacionalista e com vocabulário e sintaxe típicos do Brasil.
Seus romances podem ser divididos em quatro tipos: indianistas, urbanos, regionalistas e históricos.


Orelha 2

“ Em cerca de quarenta volumes de minha lavra ainda não produzi uma página inspirada por outra musa que não seja o amor e a admiração por este nosso Brasil.”
José de Alencar

“O autor conhece os segredos de despertar a nossa comoção por estes meios simples, naturais e belos.”
Machado de Assis

“O próprio Alencar, tanto em sua obra de criação, que é uma espécie de painel da vida brasileira, quanto em seus prefácios, pós-escritos, cartas, polêmicas e mesmo numa autobiografia, deixa transparecer com nitidez que sempre teve em mente um projeto de literatura nacional.”
Prof. Dr.  João Roberto Faria –USP

ROMANTISMO

O Romantismo foi um movimento literário que se iniciou na Europa, no final do século XVIII.
Em oposição à objetividade, ao racionalismo e à retomada dos valores clássicos do Arcadismo, o Romantismo foi um movimento marcado por subjetividade, valorização das emoções, idealismo, individualismo, busca da liberdade de criação, espiritualidade, valorização do passado e nacionalismo.


Contexto histórico

Nascido no contexto da Revolução Francesa, o Romantismo teve início na Europa em um momento em que, em razão da falência dos impérios feudais, o poder passava das mãos da nobreza para as da burguesia. A ascensão da classe burguesa provocou então uma alteração no público consumidor de literatura, que se tornou mais popular. Assim, surgiram os primeiros folhetins nos jornais, constituídos de uma literatura extremamente sentimentalista, com o intuito de atrair leitores.
Em Portugal, o Romantismo teve como marco a publicação do poema "Camões", de Almeida Garrett, em 1825, e no Brasil, a publicação da obra Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, em 1836.


Influências

Alguns filósofos dessa época foram importantes também por influenciar a constituição dos ideais românticos e, consequentemente, o início do movimento. Dentre eles, destacamos:

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) – filósofo suíço considerado precursor do Romantismo. Responsável pela teoria do “bom selvagem”, que postulava ideias como: "o homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe" e "a maioria de nossos males é obra nossa e os evitaríamos, quase todos, conservando uma forma de viver simples, uniforme e solitária que nos era prescrita pela natureza".

Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) – filósofo alemão que afirmava que o racionalismo era apenas uma parte do intelecto, ao lado de outros aspectos, como experiência, intuição, imaginação, entre outros. Por isso a influência aos românticos.

Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775-1854) – filósofo alemão considerado um dos mais importantes do Idealismo alemão pós-kantiano. Afirmava que “o único conhecimento possível é o que a consciência tem de si própria”, assim, o único saber relevante era o autoconhecimento, ideia relacionada ao individualismo e subjetivismo dos escritores românticos.



O AUTOR

Nascido em 1º de maio de 1829, em Messejana, Ceará, José Martiniano de Alencar, filho do padre e, posteriormente, ilustre senador do império, José Martiniano de Alencar e Ana Josefina de Alencar, formou-se em Direito pela Faculdade de Olinda.
Antes de iniciar a vida literária, foi advogado, jornalista, deputado e ministro da justiça. Filiado ao Partido Conservador, foi diversas vezes deputado geral no Ceará, e, entre 1868 e 1870, ministro da Justiça. Desiludido com a política, passou a se dedicar exclusivamente à literatura – pela qual ganhou a notoriedade de um dos mais importantes escritores brasileiros.
Considerado o maior romancista do movimento romântico brasileiro, destacou-se por criar uma literatura própria ao Brasil, nacionalista e com vocabulário e sintaxe típicos do país.
Seus romances podem ser divididos em quatro tipos: indianistas, urbanos, regionalistas e históricos.
Faleceu em 1877, aos 48 anos, deixando vasta obra.

O ESTILO DE JOSÉ DE ALENCAR


Considerado hoje o maior romancista do movimento romântico brasileiro, José de Alencar foi, por sua vez, bastante criticado em sua época. O que explica a má aceitação de sua obra pelos críticos de seu tempo foi, em geral, a linguagem ousada que empregava, repleta de neologismos, que, segundo ele, era explicada pelo intuito de inaugurar uma linguagem efetivamente brasileira, o “nosso dialeto” – como ele chamava –, um “português americano” e uma literatura própria, que refletissem as características de seu país.
Esse intuito do autor foi realizado principalmente em seus romances indianistas: O guarani, publicado em 1857, Iracema, em 1865, e Ubirajara, em 1874.
No entanto, José de Alencar foi um escritor de gêneros variados. No romance, além do indianismo, destacou-se também pelo romance urbano ou de costumes, com Diva, Lucíola e A viuvinha; pelo romance regionalista, com O sertanejo, O tronco do Ipê, O gaúcho e Til, e pelo romance histórico, representado por As minas de prata e A Guerra dos Mascates
José de Alencar dedicou-se também à crônica, à crítica e ao teatro, empregando também nesses gêneros traços da sua fisionomia literária e do seu talento. Neles, o estilo descritivo, a linguagem elaborada, a riqueza de detalhes e a originalidade também se manifestam genialmente.

 
SOBRE IRACEMA

 No Brasil, a primeira geração de românticos tentou adaptar o Romantismo europeu à cultura brasileira. Com a Independência, a nação buscava seus heróis formadores, os quais representariam verdadeiramente uma pátria que até então era constituída apenas por valores europeus.
Assim, para criar uma nova identidade nacional, buscaram suas bases naquilo que era próprio da cultura brasileira, que a diferenciava das nações europeias: o nativismo, a valorização da terra e do homem primitivo.
Inspirada no mito do “bom selvagem” de Rousseau, a literatura criava um herói autenticamente brasileiro: o índio. E é nesse contexto que nasce Iracema, cujo nome é um anagrama de América.
Com uma linguagem que procurava recriar a poesia natural da fala indígena, com suas personificações e comparações, a obra de José de Alencar narra o amor proibido entre a índia tabajara Iracema e o português Martim.
Iracema é “a virgem dos lábios de mel”, guardiã do segredo da Jurema (bebida mágica utilizada nos rituais religiosos) e tinha a sua virgindade consagrada a Tupã.
Martim é o guerreiro branco, amigo dos pitiguaras – inimigos da tribo de Iracema – que representa o primeiro colonizador português do Ceará.
José de Alencar recorreu a circunstâncias históricas para criar o que a crítica viria a chamar de obra-prima: uma alegoria genial à história da colonização do Brasil pelos invasores portugueses, e, por que não dizer, à história da colonização de toda a América pelo povo europeu.
Sua lenda simboliza o encontro entre duas culturas – a indígena, representada por Iracema, e a europeia, por Martim – que originariam a brasileira – simbolizada pelo filho do casal: Moacir, o"filho da dor". Sua grandiosidade reside, antes de tudo, no projeto, ambicioso e arrojado, desenvolvido por Alencar: a criação de uma narrativa de estilo romântico que contasse a dramática história da colonização no Brasil.

SOBRE CINCO MINUTOS
  
Primeiro romance de José de Alencar, Cinco minutos foi publicado pela primeira vez em 1856, em folhetins de jornal, pelo Diário do Rio de Janeiro.
A obra é narrada em primeira pessoa pelo protagonista, que conta a sua história a uma prima. O título, Cinco minutos, é a razão pela qual o narrador conheceu a mulher misteriosa por quem viria a se apaixonar. Em decorrência de um atraso de cinco minutos, ele perde o ônibus, tendo que aguardar o próximo. Ao tomar o seu lugar no seguinte, senta-se ao lado de uma dama com o rosto coberto por um véu. Mesmo sem ver o seu rosto e temendo que ela fosse feia, ele acaba se apaixonando.
O episódio parece banal, mas sendo parte da trama de obra da primeira fase do Romantismo, é de se esperar que seja envolvida de espiritualidade e que siga uma tendência passional.
Assim é Cinco minutos, romance urbano da primeira fase de José de Alencar que evidencia um amor tipicamente romântico: puro, casto, duradouro e regenerador, sentido por duas almas que lutam e enfrentam obstáculos aparentemente intransponíveis para que possam concretizá-lo.

Dom Casmurro - Edição, introdução, guia de leitura, textos de capa


Contracapa

Publicado pela primeira vez em 1900, Dom Casmurro é o romance mais famoso e polêmico de Machado de Assis. Ambientado no Rio de Janeiro do século XIX, é narrado por seu protagonista: o Dom Casmurro, um velho solitário e frustrado que, em virtude de sua “simpatia”, recebe esse apelido de um conhecido.
O personagem busca, por meio da narrativa, rememorar e compreender fatos do seu passado: principalmente os que envolvem uma mulher: Capitu, a personagem mais intrigante e misteriosa da literatura brasileira.
A polêmica toda se centraliza em uma dúvida: Capitu é ou não culpada de adultério? Os fatos até podem indicar que sim, mas o leitor não pode deixar de atentar para um fato: Bento Santiago – o Dom Casmurro –, além de narrador, é advogado. Não teria ele todos os atributos intelectuais para envenenar a narrativa, de modo a convencer o leitor a condenar Capitu?
Obra lida no mundo todo por sua genialidade não pode deixar de ser deliciada pelo leitor brasileiro.

Orelha da contracapa

Órfão, pobre, mulato, gago e doente em pleno século XIX, Machado de Assis, apesar das dificuldades, foi tipógrafo, comentarista, jornalista e, como escritor, tornou-se um inegável prodígio da Literatura Brasileira.
Autor de vasta obra entre praticamente todos os gêneros, foi no romance e no conto que mais se destacou. Com seu estilo conciso, sua ironia, seu humor e com a análise psicológica dos seus personagens, Machado de Assis inaugurou o Realismo no Brasil e foi o autor mais importante do estilo em nosso país.

Orelha da capa

Os críticos estavam interessados em buscar a verdade sobre Capitu, ou a impossibilidade de se ter a verdade sobre Capitu, quando a única verdade a ser buscada é a de Dom Casmurro.
Silviano Santiago

Dentro do universo machadiano, não importa muito que a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a consequência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói sua casa e a sua vida.
Antônio Cândido

Um homem inteligente, sem dúvida, mas simples, que desde rapazinho se deixa iludir pela moça que ainda menina amara, que o enfeitiçara com a sua faceirice calculada, com a sua profunda ciência congênita de dissimulação, a quem ele se dera com todo ardor compatível com o seu temperamento pacato.
José Veríssimo

Até você, cara - o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor - e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou critico negou o adultério?
Dalton Trevisan

Quem fica tiririca, e com toda a razão, com essa história mal contada, e tão mal contada que desmente o próprio Machado de Assis, é o Dalton Trevisan (...) Dar o Bentinho como o “nosso Otelo” é pura fantasia. Bestialógico mesmo.
Otto Lara Resende

REALISMO

O Realismo foi um movimento literário que se iniciou na Europa, na segunda metade do século XIX, com a publicação do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert.
Fazendo oposição ao idealismo do movimento romântico, os realistas concebiam os fatos de forma mais objetiva e fiel à vida real. Assim, o romance deixa de ter a função de distrair e entreter, como boa parte da produção folhetinesca do Romantismo, e toma nova importância: mostrar a realidade, diagnosticar as patologias humanas e sociais, apontar a corrupção e os desvios de caráter de toda a sociedade.


Contexto histórico

A partir da segunda metade do século XIX, a Europa passa por grandes e significativas mudanças. Muitas delas responsáveis pela constituição das sociedades ocidentais de hoje.
A Burguesia começa a, definitivamente, tomar espaço. Com isso, os interesses burgueses, industriais e materialistas passam a imperar; as cidades industriais se desenvolvem e o grande contingente de operários que nelas passa a viver e trabalhar revolta-se; agitações políticas espalham-se pelo continente.
Ao mesmo tempo, a ciência – sobretudo a natural – passa por um desenvolvimento tão intenso que, com seus métodos de experimentação e observação da realidade, se torna a única apta a explicar o mundo.


Influências

De acordo com esse contexto, algumas teorias, além de marcar a época, influenciaram o surgimento e a constituição dos ideais realistas. Dentre elas, destacamos:

o   Positivismo – teoria segundo a qual apenas por meio da experiência se chega à “verdade”. Um de seus defensores foi Auguste Comte, pensador e sociólogo francês – e considerado criador da Sociologia – que defendia que a análise social deveria se basear nos métodos positivos adotados por outras ciências: como a observação, a comparação e a experimentação.

o   Darwinismo – como ficou conhecida a teoria da seleção natural, segundo a qual apenas os mais aptos e fortes de cada espécie conseguiriam sobreviver. Foi o cientista natural inglês Charles Darwin – que chocou o mundo com o fruto de suas pesquisas (e até hoje é alvo de polêmicas) – que, com a publicação da obra A origem das espécies, embasou essa teoria. Para o Realismo, a consequência dessa corrente filosófica é a visão do homem como um animal (que, como outras espécies, evoluiu), em detrimento da visão espiritualizada do Romantismo.

o   Determinismo – teoria segundo a qual o homem é condicionado pelos fenômenos que vivenciou, passando a ser deles consequência. Assim, fatores como o meio social e a herança genética explicam suas decisões e comportamentos.


O REALISMO DE MACHADO DE ASSIS


Para os adeptos do movimento realista, a sociedade estava cheia de problemas que precisavam ser apontados (de forma objetiva e verossímil, por isso, através da ciência) para que pudessem ser resolvidos. E esse era o papel dos realistas, diagnosticar, mostrar o que – verdadeiramente – acontecia, sem as idealizações dos românticos.

No entanto, cada autor enfocou e desenvolveu esses princípios a sua maneira. Aluísio Azevedo focou nas patologias sociais, explicadas sob a ótica determinista; Eça de Queirós, na hipocrisia da sociedade e dos seus papéis. Machado de Assis, que inaugurou o Realismo no Brasil em 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas, criou um estilo completamente novo e próprio com base nesses preceitos. O cientificismo do movimento tomou forma nas suas obras por meio da análise psicológica; a crítica à sociedade desenvolveu-se com base nos indivíduos que a constituem: os homens, por isso a análise da constituição moral do ser humano.

SOBRE DOM CASMURRO
A QUESTÃO INDECIFRÁVEL: HOUVE ADULTÉRIO?

Com o enredo iniciado pelo final e desenvolvido em flash-back, Dom Casmurro foi publicado pela primeira vez em 1900. O título é o apelido que Bento Santiago, o protagonista, recebeu, sarcasticamente, de um conhecido que se sentiu desrespeitado por sua falta de disposição em ouvir seus versos. Assim, o apelido tornou-se motivo de piada, e Bento acabou por aceitá-lo, afinal, combinava com a sua personalidade.[1]
Dom Casmurro, velho solitário e frustrado com a vida, busca por meio da narrativa rememorar e compreender fatos do passado: o romance com Capitu, o período no seminário, o relacionamento com os familiares e amigos, o casamento desfeito – enfim aquilo que transformou o menino – puro e ingênuo – no velho – solitário e infeliz.
A vida de Bento transcorre sem grandes incidentes até uma tarde, em 1857, quando descobre a intenção da mãe em fazê-lo padre, em virtude de uma promessa que fez ainda grávida, por ter perdido o primeiro filho. Surpreso, Bento conta tudo a Capitu – vizinha, amiga e primeiro e único amor de sua vida. O conflito os aproxima ainda mais, e eles juram no futuro se casar.
Muitos anos se passam até que o casamento possa efetivamente ocorrer. Nesse intervalo, Bento passa por diversos acessos de fúria, por ciúmes da amada. E, depois de casado, ele se mostra cada vez mais ciumento, e isso se agrava ainda mais com o nascimento do filho, que se torna a cada dia, segundo ele, mais parecido com seu melhor amigo: Escobar.
Com a publicação da obra, grande polêmica é criada em torno de Capitu. Teria ela dado razões para a desconfiança do marido? Ou teria o ciúme do marido desencadeado o adultério? Ou Capitu era, desde sempre, inocente, e tudo não passou de delírios da mente doentia de Bento?
Por um lado, alguns fatos evidenciam a efetivação do adultério: como a personalidade de Capitu – os olhares e tudo o que causava os ciúmes do marido – e a semelhança do filho com o amigo, Escobar. Em contrapartida, Capitu não tem defesa: toda a história é narrada por seu marido ciumento.
Eis o caminho para se compreender Dom Casmurro. A narrativa não segue uma ordem linear, cronológica, e sim psicológica, ou seja, o mais importante – a alma da obra – não está propriamente nos fatos, mas na constituição psicológica e moral de seus personagens. Machado criou uma narrativa completamente unilateral: só conhecemos a visão de mundo de Bento, os fatos seguem a sua perspectiva, e o próprio enredo é secundário em relação à análise do personagem.
Além disso, um detalhe torna a obra de Machado de Assis ainda mais intrigante e genial: Bento Santiago é advogado, ou seja, possui todos atributos formais para narrar os fatos do modo como lhe convém, ou como melhor convence seu leitor. Assim, como condenar alguém sem conhecer a sua versão dos fatos?


[1] Casmurro significa calado, metido consigo.


O missionário, de Inglês de Sousa


 Sobre O Missionário

A obra

Desenvolvida com base no conto “O Sofisma do Vigário”, a obra O missionário, de Inglês de Souza, teve a sua primeira publicação em 1888. Romance de tese acerca do conflito entre a vocação sacerdotal e o instinto sexual, tem como protagonista Antônio de Morais, filho de um homem brutal e despótico e de uma mulher submissa e nulificada, que vivera uma infância “à solta, sempre longe de casa, nos campos, no rio, no curral, para fugir à presença terrível do velho e à negra melancolia que devorava a pobre mãe desgraçada”.
Percebendo que o afilhado não teria futuro com a educação recebida, o padrinho toma-o sob sua proteção e o envia para o Seminário, a fim de que fosse convenientemente educado. Assim, ocorre uma completa transformação no personagem, que, aos poucos, vai deixando de ser o menino “selvagem” para tornar-se “civilizado”. No entanto, em seu íntimo, constrói-se um conflito: o que fazer com o desejo que não consegue sublimar?
Antônio, então, apega-se cada vez mais à fé para abafar a natureza selvagem. Ao formar-se padre, muda-se para Silves, pequeno povoado no Pará, à entrada da selva  amazônica. E logo, pela dedicação e pela conduta, recebe o prestígio de sacerdote correto e pio. 
Entretanto, não demora muito, a rotina da pequena cidade, com suas intrigas e seus mexericos, começa a entediá-lo. Vai perdendo o idealismo. Por isso, busca uma razão maior para a sua existência e, na companhia de Macário, o sacristão, adentra a Floresta Amazônica com o intuito de catequizar os temíveis índios mundurucus.
            A partir daí, o conflito que lhe cerca a existência desde os tempos do Seminário acirra-se, e o personagem vai sendo tomado pelas forças do meio, do instinto e da hereditariedade – “matuto a meio selvagem” que era, “que saciava o apetite sem peia nem precauções nas goiabas verdes, nos araçás silvestres, nos taperebás vermelhos, sentindo a acidez irritante da fruta umedecer-lhe a boca e banhá-la em ondas duma voluptuosidade bruta”.
            A trama é composta também por personagens menores, mas não menos importantes – do ponto de vista do romance de tese –, como Macário, homem de origem pobre e sofrida que, tendo melhorado de vida em detrimento da caridade da Igreja, a tudo suporta para não perder a posição de sacristão; e Chico Fidêncio, o “pseudointelectual” que vive do jornalismo sensacionalista, da crítica ao comportamento dos moradores da vila – quando isso não lhe traz inimigos de peso – e dos escândalos dos vigários.
Partindo do regional para o universal, o autor, ao delinear e investigar, aproxima o comportamento do paraibano, do mestiço amazonense, do brasileiro, ao comportamento humano de maneira geral, sendo, ainda hoje, obra que se mantém atual. E assim é medida a importância de O Missionário, obra que não só investiga a intimidade de um padre, revelando-lhe a origem, os ideais e os conflitos, como também retrata, em detalhes e com profundidade crítica, o cotidiano de uma pequena cidade do Pará no século passado, que bem poderia representar qualquer cidade amazônica da época.

O contexto e as influências

Publicado em 1888, O missionário insere-se no movimento realista/naturalista brasileiro, iniciado em 1881 por Machado de Assis, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, e Aluísio Azevedo, com a obra O mulato.
Podemos afirmar, estilisticamente, que o Realismo surge como oposição ao excesso de subjetivismo e emotividade do Romantismo. O movimento, originado na Europa na segunda metade do século XIX, foi fortemente influenciado por teorias científicas da época e caracterizava-se pela busca de uma abordagem objetiva da realidade, por análises por meio da ciência e pelo interesse por temas sociais.
Para os adeptos do movimento, a sociedade estava repleta de problemas que precisavam ser diagnosticados (de forma objetiva e verossímil, por isso, por intermédio da ciência) para que pudessem ser resolvidos. E esta era a intenção e a busca dos realistas: diagnosticar, mostrar o que “verdadeiramente” acontecia, sem as idealizações típicas do Romantismo.
No entanto, podemos dizer que quando a busca de um autor centra-se, exageradamente, em comprovar os fatos e as ações dos personagens do ponto de vista das ciências naturais, fazendo uso, assim, de ideias darwinistas e deterministas, a obra será naturalista. Nas palavras de Alfredo Bosi,[1] “o Realismo se tingirá de Naturalismo, no romance e no conto, sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das ‘leis naturais’ que a ciência da época julgava ter codificado”.
Em O missionário, Inglês de Souza enuncia o conflito de um padre que vai sendo dominado por seu instinto sexual, construindo, à moda dos naturalistas, uma tese determinista: a natureza selvagem (sua herança genética) é mais forte que a fé, e o conduz com força muito maior que o seu livre-arbítrio. Podemos então dizer que a obra é realista em virtude da análise objetiva dos fatos e personagens e da crítica anticlerical – a exemplo de O crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós –, e naturalista em decorrência  do determinismo antropológico que conduz a trama.

O autor

Inglês de Sousa (Herculano Marcos Inglês de Sousa) nasceu em Óbidos-PA, em 28/12/1853, e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 6/9/1918. Foi professor, advogado, jornalista e escritor (nos gêneros romance e conto).
Diplomou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo em 1876, ano em que publicou seus primeiros romances: O Cacaulista e História de um pescador. Mais tarde, em 1877, publica O coronel sangrado.
Por essas obras,  bem poderia ter sido considerado o introdutor do Naturalismo no Brasil, tendo em vista que nelas já se encontram princípios norteadores da prosa naturalista, como as investigações sobre a influência, no homem, do meio e da hereditariedade e a análise documental da sociedade da época.  No entanto, seus primeiros romances não tiveram repercussão – nem entre os escritores do período, que eram, ainda, fiéis ao Romantismo, nem entre os críticos literários.
Assim, a crítica considera fundador do Naturalismo no Brasil Aluísio Azevedo, com a obra O mulato (1881).
Inglês de Souza é considerado, no panorama da Literatura naturalista, um escritor menor, não apresenta o prestígio de autores como Émile Zola, Eça de Queirós e Aluísio Azevedo.
No entanto, com a publicação de O missionário, em 1888, ganha certa notoriedade. Podemos afirmar que a importância e grandeza dessa obra residem na visão erudita e racional do autor, que, sendo um jurisconsulto e homem de ciência, consegue ver a realidade amazonense além de seu cotidiano, gerando uma tese – a de que o homem é conduzido por forças maiores que a sua vontade, como o meio, a hereditariedade, o instinto sexual – e uma narrativa minuciosa, que vai além do banal e é capaz de explicitar – e julgar – os valores e influências de uma sociedade.
Além disso, Inglês de Souza está entre aqueles que ousaram criticar as atrocidades de seu tempo, tecendo fortes críticas à Igreja católica, que, já naquela época – e ainda hoje, como evidencia o nosso jornalismo –, apresentava escândalos por parte de seus “missionários”.
Inglês de Souza publicou, também, Contos amazônicos, em 1893.




[1] BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1976, p. 214.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Net Educação: texto sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis

A narrativa unilateral não segue uma ordem linear, cronológica, e sim psicológica.
Autor
Filho de Francisco José Machado de Assis, operário e mulato, e de Leopoldina Machado de Assis, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 21/6/1839.

Órfão de mãe muito cedo, foi criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata. Sem meios para frequentar cursos regulares, estudou como pôde. Consta que suas primeiras lições de francês foram ministradas por uma senhora francesa, proprietária de uma padaria. Desde cedo, Machado aproveitou as poucas oportunidades de ensino que teve e obteve a maior parte dos seus conhecimentos pelo estudo autodidata.

Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês empregou-se como doceira em um colégio do bairro onde moravam, onde também trabalhou Machado de Assis. No colégio, teve contato com professores, e alguns biógrafos apontam que, provavelmente, tenha assistido a algumas aulas nos momentos em que não estava trabalhando.

Em 1856, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de tipógrafo, onde conheceu Manuel Antônio de Almeida. Em 1858, tornou-se revisor e colaborador do jornal Correio Mercantil e, em 1860, recebeu o convite de Quintino Bocaiúva para trabalhar na redação do Diário do Rio de Janeiro. Nesse período, tem início a vasta produção literária de Machado de Assis, que escreve em jornais e revistas da época, ora como crítico, ora publicando contos e poesias.

Em 1869, casou-se com Carolina Novais, com quem, de acordo com a maior parte dos dados biográficos, viveu uma união feliz. Em 1881, com a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, sua carreira literária toma vulto e ele passa, efetivamente, a receber o devido mérito.

Em 1897, torna-se presidente da Academia Brasileira de Letras, tendo sido um de seus fundadores. Morre em 1908, deixando vastíssima produção em praticamente todos os gêneros literários.

Seu estilo, inicialmente apresentando características românticas, aprimora-se após a publicação de Memórias Póstumas, de modo que pode ser definido pela visão objetiva e pessimista da realidade, pelo estilo conciso, pela análise psicológica de seus personagens – reveladora das contradições humanas –, pela ironia e pelo humor que permeiam suas críticas.
Contexto e análise da obraAntes que se inicie a análise de Dom Casmurro, é importante que se compreenda o contexto histórico e as características do movimento a que a obra pertence.

O Realismo, movimento literário que se inicia na segunda metade do século XIX, como reação ao subjetivismo do Romantismo, teve como marco, no Brasil, a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, por Machado de Assis, em 1881. Influenciado fortemente por teorias científicas da época (ao que chamamos aqui de cientificismo), o movimento caracteriza-se pela busca de uma abordagem objetiva da realidade, por análises por meio da ciência e pelo interesse por temas sociais. Para os adeptos do movimento, a sociedade estava cheia de problemas que precisavam ser diagnosticados (de forma objetiva e verossímil, por isso, através da ciência) para que pudessem ser resolvidos: e este era o papel dos realistas, diagnosticar, mostrar o que verdadeiramente acontecia, sem as idealizações dos românticos.

No entanto, cada autor enfoca e desenvolve esses princípios a sua maneira. Aluísio Azevedo focou nas patologias sociais, explicadas sob a ótica determinista; Eça de Queirós na hipocrisia da sociedade e dos seus papéis.
Machado de Assis cria um estilo completamente novo e próprio com base nos preceitos realistas. O cientificismo do movimento toma forma nas obras do autor por meio da análise psicológica; a crítica à sociedade desenvolve-se a partir daquele que a constitui, o homem: assim, as análises do autor enfocam a constituição moral do ser humano.

E esse é o caminho para se compreender Dom Casmurro. A narrativa não segue uma ordem linear, cronológica, e sim psicológica, ou seja, o mais importante, a alma da obra, não está propriamente nos fatos, mas na constituição psicológica e moral de seus personagens. Machado cria uma narrativa completamente unilateral, só conhecemos a visão de mundo de Bento, os fatos seguem a sua perspectiva, e a própria narrativa é secundária em relação à análise do personagem.
Resumo do enredoO enredo de Dom Casmurro começa pelo final e se desenvolve em flash-back. Dom Casmurro é o apelido que Bento Santiago recebe, sarcasticamente, de um conhecido que se sente desrespeitado pela sua falta de disposição em ouvir os versos que compôs. Assim, o apelido torna-se motivo de piada, e Bento acaba por aceitá-lo, afinal, combinava com a sua personalidade – Casmurro significa calado, metido consigo.

Dom Casmurro, velho solitário e frustrado com a vida, busca por meio da narrativa rememorar e compreender fatos do passado: o romance com Capitu – com quem viria a se casar –, o seminário, o relacionamento com os familiares e amigos, o casamento desfeito - enfim aquilo que transformou o menino puro e ingênuo no velho solitário e infeliz.

A vida de Bento transcorre sem grandes incidentes até uma tarde, em 1857, quando ouve o seu nome ser pronunciado e se esconde para escutar do que se tratava. Sua mãe, dona Glória, conversava com José Dias, agregado da família, sobre a intenção de colocar o filho no seminário, em virtude de uma promessa que fez ainda grávida, por ter perdido o primeiro filho.

Surpreso, Bento corre para contar a Capitu – vizinha, amiga e primeiro e único amor de sua vida. O conflito os aproxima ainda mais, e eles juram no futuro se casar. Para isso, elaboram planos para evitar a ida ao Seminário. Capitu, sempre esperta e racional, elabora os melhores planos, enquanto Bento, inexperiente e ingênuo, tem apenas ideias mirabolantes – como falar com o imperador.

Apesar dos esforços, e da ajuda de José Dias, eles nada conseguem, e Bento vai para o Seminário. Lá, faz um amigo: Escobar, com quem troca confidências e passa a frequentar-lhe a casa. E é esse amigo que propõe uma solução ao caso de Bento: se D. Glória prometera a Deus um sacerdote, porque não outro filho, adotivo?

Assim, Bento sai do Seminário e parte para São Paulo a fim de estudar. Em cinco anos, volta advogado e casa-se com Capitu; ao passo que Escobar se casa com Sancha, amiga de infância de Capitu.

Casado, Bento vai se mostrando cada vez mais ciumento, e isso se agrava com o nascimento do filho, que se torna a cada dia, segundo ele, mais parecido com Escobar.

A gota d’água para ele – e prova da traição de Capitu – é o modo como ela olha para o defunto Escobar, em 1871, quando este morre afogado. A partir daí, o relacionamento entre eles não é mais o mesmo: Bento pensa ora em suicidar-se, ora em matar Capitu e o filho, mas não tem coragem.

No entanto, acusa Capitu de traição e resolve pôr fim ao casamento. Viaja então com a esposa e o filho para a Europa, onde os estabelece e retorna sozinho ao Brasil.

Nunca mais vê a esposa. Aos poucos, Bento perde todos os entes queridos: D. Glória, José Dias, prima Justina, Capitu e, finalmente, o filho Ezequiel, que morre de febre tifóide em uma expedição arqueológica ao Egito. Assim, Bento abandona-se à solidão e à amargura, tornando-se o Dom Casmurro.

Com a publicação da obra, grande polêmica é criada: houve traição? E esta questão permanece para os leitores de todos os tempos. Se, por um lado, alguns fatos evidenciariam que ela se efetivou: como a personalidade de Capitu – os olhares e tudo o que causava o ciúme do marido – e a semelhança do filho com o amigo, Escobar; por outro, Capitu não tem defesa. Toda a história é narrada por um homem doentiamente ciumento e advogado, ou seja, com os atributos para guiar os fatos ao seu favor. Assim, não podemos condenar alguém sem conhecer a sua versão dos fatos, e só temos, unilateralmente, a visão de Bento.

Veja mais em:

http://www.educandusweb.com.br/neteducacao/portal_novo/?pg=pesquise/artigo&cod=2014

Net Educação: texto sobre Vidas secas, de Gracilliano Ramos

O romance foca o regionalismo, o nordestino, de modo que emergem problemas como a seca, a migração, a miséria do trabalhador rural e a ignorância imposta pela falta de oportunidades.
AutorNascido em 1892 em uma família de classe média do sertão nordestino, em Quebrângulo-AL, Gracilliano Ramos passa uma parte da infância em Buíque-PE e outra em Viçosa-AL. Cursa o secundário em Maceió e, em 1910, muda-se com a família para Palmeira dos Índios-AL.

Mais tarde, passa a viver no Rio de Janeiro, onde trabalha como revisor de textos. No entanto, em virtude da morte de três irmãos, de peste bubônica, retorna em 1914 para o Alagoas.

Passa então a dedicar-se ao jornalismo e à política em Palmeira dos Índios, onde chega a ser prefeito, de 1928 a 1930.
Muda-se em 1930 para Maceió e passa a dirigir a Imprensa e Instrução do Estado. Publica seu primeiro romance – Caetés – em 1933, e a seguir, São Bernardo – em 1934 – e Angústia – em 1936. Esses romances incitam no leitor uma visão crítica da sociedade moderna. Gracilliano Ramos parte do regional para o universal, evidenciando a opressão pelas classes superiores e buscando desvendar psicologicamente o ser humano – seus dramas e as razões que justificam suas atitudes.

Ainda em 1936, acusado de ter conspirado no levante comunista de 1935, é preso em Maceió e enviado a Recife. Segundo o professor Carlos Eduardo Ornellas Berriel, logo depois desse evento em 1935, "houve um movimento de caça às bruxas, de gente que queria acertar as contas com seus desafetos, diziam que eram comunistas e acabavam presos. Graciliano foi preso depois de ser denunciado como comunista. Mas só ingressaria no PCB em 1945”. Em Memórias do Cárcere, publicado em 1953, o autor relata esse duro período.

Em 1936, é solto e muda para o Rio de Janeiro, onde continua a sua carreira literária escrevendo contos, livros infantis e romances. Publica Vidas Secas em 1938. Em 1945, filia-se ao Partido Comunista e realiza uma viagem a diversos países comunistas, que será relatada no livro Viagem, publicado em 1953, ano de sua morte.

C
ontexto e análise da obraPara que se compreenda com profundidade a obra Vidas Secas, de Gracilliano Ramos, é necessário que se conheça um pouco a respeito do contexto de época e do movimento literário em que é classificada.

A obra se insere na segunda fase do Modernismo brasileiro, que compreende as décadas de 1930 e 1940, período em que o Brasil e o mundo viviam profundas crises. O mundo, em virtude da crise da Bolsa de Nova Iorque, do combate ao comunismo e do nazifascismo – que desencadearão a II Guerra Mundial; o Brasil, principalmente em razão da crise cafeeira. Dessa maneira, esse quadro social, econômico e político inspira uma nova postura dos artistas diante da realidade, uma nova posição ideológica. Na literatura brasileira, isso influencia os escritores brasileiros a privilegiar a análise crítica da realidade: analisando-a e/ou denunciando-a, como é o caso de Gracilliano Ramos.

Desse modo, percebemos na prosa o interesse por temas nacionais, a criação de uma linguagem mais brasileira e um enfoque social mais direto em relação ao Realismo/Naturalismo – da segunda metade do século XIX –, em que os autores apontavam críticas, porém de maneira mais geral, sem o aprofundamento e o detalhamento das situações evidenciadas pelos modernistas.

O romance passa a focar o regionalismo – no caso de Gracilliano Ramos, o nordestino – de modo que emergem problemas como a seca, a migração, a miséria do trabalhador rural e a ignorância imposta pela falta de oportunidades.
Resumo do enredoFormado por 13 capítulos que se justapõem sem uma ligação lógica e podem ser lidos separadamente e em qualquer ordem como contos independentes, Vidas Secas narra a saga de uma família de retirantes, constituída pelo pai (Fabiano), a mãe (Sinhá Vitória), o menino mais velho e o menino mais novo (os filhos do casal que não levam nomes) e Baleia (a cachorrinha).

Confundidos com a paisagem áspera do sertão, os personagens de Vidas Secas vivem o drama da seca e são esculpidos por ela. Por meio de uma linguagem dura e direta, o narrador decifra o homem do sertão, a condição animalesca a que é submetido, as esperanças sempre esmiuçadas.

É importante notar que os personagens quase não se comunicam; e quando isso acontece, é por meio de palavras secas e diretas – como quando Fabiano, irritado com os filhos, em vez de dar explicações sobre os comportamentos que julga inadequados, xinga-os simplesmente. Outro dado notável é o fato de os meninos não levarem nomes, estratégia do autor para denunciar a realidade mesquinha a que são submetidos os retirantes que, citando João Cabral de Melo Neto, “são tantos e iguais em tudo na vida”.

O livro se inicia com a família a vagar pelo sertão nordestino em busca de um lugar para viver. Depois de peregrinação exaustiva, eles encontram uma fazenda abandonada, onde passam a noite. Fabiano, então, vê uma esperança e sente-se um bicho, um animal que cumpre seu dever, que luta pela sobrevivência da prole.

No entanto, essa esperança é despedaçada com a chegada do dono da fazenda, que os ameaça expulsar de seu território. Fabiano, então, implora trabalho e a família acaba ficando na fazenda. Sente-se um bicho novamente, mas agora em sentido negativo.

A família vive na fazenda por um ano, e Fabiano trabalha arduamente como vaqueiro, sem, no entanto, receber um salário justo. A família vai a uma festa na cidade, e Fabiano é convidado por um soldado a jogar baralho, de modo que aposta todo o salário. Ao perceber que perderia, resolve abandonar a partida. Entretanto, é abordado pelo soldado, que provoca uma briga. Este, então, chama a polícia e Fabiano é preso e agredido com um facão.

Sinhá Vitória e os meninos passam a noite na calçada e, no dia seguinte, Fabiano é liberado da prisão pelo padre. Tempos depois, Fabiano reencontra o soldado, e acaba engolindo novamente a raiva que sente e tratando-o cordialmente.

Baleia adoece e é sacrificada por Fabiano. Todos sofrem. Inicia-se um novo período de seca e a família mais uma vez prepara a retirada, desta vez para a cidade grande, onde havia chances de uma vida melhor.

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Net Educação - Texto sobre Capitães da Areia, de Jorge Amado

A narrativa de Jorge Amado, de cunho documental e realista, aborda a crueldade da vida dos meninos de rua, a luta diária por alimento e dinheiro.
 
AutorJornalista e romancista, Jorge Amado nasceu em Itabuna-BA em 1912. Filho do Coronel João Amado de Faria e de D. Eulália Leal Amado, passou a infância em Ilhéus. Cursou o secundário em Salvador, onde viveu a adolescência e teve os primeiros contatos com a vida popular, que marcaria profundamente a sua obra.

Aos 14 anos, começou a trabalhar em jornais e iniciou a vida literária. Formou-se em Direito no Rio de Janeiro, mas jamais advogou. Em vez disso, dedicou-se à literatura e à política. Casou-se com Zélia Gattai e teve dois filhos.

Estreou na literatura em 1930, com a publicação da novela Lenita, escrita em colaboração com Dias da Costa e Édison Carneiro. Autor de vasta obra, foi traduzido para 48 idiomas e dialetos. Teve também romances adaptados para o cinema, o teatro, o rádio e a televisão.

Em 1945, foi eleito deputado federal pelo Estado de São Paulo. Participou da Assembleia Constituinte de 1946 (pelo Partido Comunista Brasileiro) e da primeira Câmara Federal após o Estado Novo, tendo sido responsável por diversas leis em detrimento da cultura.

Por motivos políticos, viveu exilado na Argentina e no Uruguai (1941-1942), em Paris (1948-1950) e em Praga (1951-1952). Morreu em Salvador em 2001.
Contexto e análise da obraPara que se compreenda com profundidade a obra Capitães da Areia, de Jorge Amado, é preciso entender o contexto histórico da década em que foi escrita: 1930.

Como resposta ao colapso econômico do país após a queda da Bolsa de Nova York, o Brasil viveu a Revolução de 30. Reflexo da revolta de jovens militares, da população de classe média, do proletariado urbano e das oligarquias nordestinas e sulistas, a Revolução foi idealizada a partir da aliança desses setores e outros, também marginalizados politicamente.
Jorge Amado foi um dos mais importantes militantes dessa época e um dos autores responsáveis pela criação de um estilo novo na literatura, moderno e liberto da linguagem tradicional. Nele, incorporou-se a linguagem regional e as gírias locais.

Capitães da areia foi publicado em 1937 e pertence à primeira fase de Jorge Amado. Mostra as diferenças de classe, a má distribuição de renda e os efeitos da marginalidade na vida de crianças e adolescentes, que vivem brutalizados por um sistema social perverso. Trata-se de uma das obras de maior engajamento social e político do autor, que pertenceu ao Partido Comunista Brasileiro.
Resumo do enredoO romance Capitães da Areia narra a realidade de menores abandonados da Bahia, que vivem num velho trapiche. O grupo, liderado por Pedro Bala, é composto por meninos que lutam diariamente pela sobrevivência, tornam-se homens muito cedo, aprendem a reagir à situação de que são vítimas. Possuem vida sexual, lidam com dinheiro, enganam, roubam, estupram, enfrentam a polícia, aprendem que a infância não é para eles. Adquirem a malícia necessária para sobreviver ao meio. No entanto, são meninos, cheios de sonhos, mas sem família, colhendo migalhas de amor, abandonados pela vida.

Jorge Amado opõe a crueldade – o que recebem da sociedade e por isso devolvem – e a pureza – característica de toda criança.

Filho de um líder sindical, Pedro Bala fica órfão muito cedo e aprende a lidar com a realidade das ruas. Cheio de ousadia e coragem, torna-se o líder dos Capitães de Areia. Conhece os prazeres sexuais também muito jovem, tanto ele como os demais do grupo estupram as negrinhas nas ruas à noite e frequentam bordéis. Apesar disso, Pedro descobre o amor puro da adolescência com Dora, menina órfã cujos pais morrem da epidemia de varíola.

Dora torna-se sua noiva e integrante ativa do grupo, participando de todas as ações na companhia dos meninos. Mas em um dos roubos, os Capitães de Areia são presos pela polícia. Num ato de coragem, Pedro Bala consegue distrair os policiais para que os amigos possam fugir. No entanto, ele e Dora são presos. O líder dos Capitães vai para o reformatório, onde é torturado pela polícia; e Dora, para o orfanato, onde também sofre maus-tratos. Bala consegue fugir e resgata a namorada, que adoece pelo tratamento recebido. O casal vive uma noite de amor e Dora amanhece morta. O menino sofre mais uma grande perda em sua vida.

Tendo Dora como musa, como a mulher mais forte que já existiu na Bahia, “mais valente que Rosa Palmeirão, que Maria Cabaçu”, Pedro Bala continua a luta diária, e encontra na luta sindical a esperança. Pedro é mais que um líder de meninos abandonados, é um forte, um herói, representa o idealismo e a resistência.

O grupo possui ainda outros personagens importantes: o negro João Grande, bondoso e forte; o Professor, de grande potencial artístico e intelectual; Pirulito, místico e introvertido; o Gato, elegante e conquistador, típico malandro brasileiro; o Sem-Pernas, menino com deficiência, cuja revolta encobre a pureza e a bondade; Volta Seca, afilhado de Lampião.

A narrativa, de cunho documental e realista, aborda a crueldade da vida desses meninos de rua, a luta diária por alimento e dinheiro. As desigualdades sociais e o comportamento violento dos meninos são abordados como frutos da marginalização; da desonestidade, do egoísmo e do pouco caso das classes dominantes.

Por outro lado, no meio dessa realidade fria, cenas de singelo lirismo mostram a pureza das crianças. O autor conduz a narrativa em detrimento dos destinos individuais de cada participante do grupo, que adquirem, com a luta, a resistência e a consciência revolucionária. Os meninos tornam-se marginais em decorrência da opressão social, mas conquistam o heroísmo ao lutar pela dignidade.

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